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Língua sena

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A língua sena (também chamada xisena, chisena ou cisena) é a terceira língua banta de Moçambique, sendo a língua materna de cerca de 10% da população do país,[1] predominantemente falada nas províncias do baixo Zambeze, mas também no extremo sul do Maláui. O registo da presença de falantes de sena na região está documentado com a designação da Vila de Sena, a partir de 1561.

Factos rápidos Sena xisena, Códigos de língua ...
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Dialetos e línguas relacionadas

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Trata-se de uma língua bantu da zona N — conjunto também designado como línguas niassa — da família nígero-congolesa, cujo contínuo dialetal se estende do litoral tanzaniano do lago Niassa, a norte, à cidade da Beira, a sul, e do delta do rio Zambeze, a leste, até à Zâmbia e Zimbabwe, a oeste.[2] A língua sena faz parte do grupo senga-sena, o mais meridional da zona N, que também inclui as línguas nsenga, phimbi, kunda, nhúngue e barwe. O sena desenvolveu-se sob influência das línguas dominantes dos dois grandes reinos vizinhos. A sul, o xona, do reino do Monomotapa (1430–1760), e a norte, o nyanja-chewa do reino Marave (1480–1889).[3] Até à segunda metade do século XX, todas as línguas senga-sena foram consideradas variedades dialetais da língua nyanja-chewa, também da zona N.[4]

Além do sena central (xisena ou sena-tonga, centro e norte de Sofala), esta língua tem os seguintes dialetos: sena-bangwe (sena do sul, Beira), sena-care (sena do norte, Mutarara e Morrumbala), sena-gombe (Caia, Chemba, Mutarara, Cheringoma, Dondo e Nhamatanda), sena-phodzo (Marromeu, Mopeia e Chinde) e sena-malawi (Nsanje e Chikwawa).[5][6]

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Grupos linguísticos da zona N - Línguas Nyasa / Niassa (Gordon Jr., 2005 & Maho, 2009)
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Distribuição e uso da língua

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O sena é a língua materna de cerca de 60% da população na província de Sofala, 30% em Manica, 30% em Tete e 10% na Zambézia.[7] Até aos anos 1880, os falantes de sena centravam-se ao longo do rio Zambeze.[8] A sua deslocação para sul poderá dever-se ao estabelecimento da Beira (1887) e posterior abertura da ferrovia, entre a Beira e a Vila de Sena, construída pela britânica Trans Zambezi Railways (1922). Atualmente, o sena é a língua bantu demograficamente predominante da Beira, mas não a língua utilizada para comunicar com falantes de outras línguas bantu nem a língua bantu da liturgia católica.[9]

A primeira gramática da língua sena foi elaborada e impressa em Chupanga (Marromeu), em 1900, pelo missionário e filólogo jesuíta francês Jules Torrend, numa edição trilingue em português, sena e inglês.[10] Dois anos antes, a tipografia desta missão católica já tinha produzido um catecismo sena-português.[11] Em 1957, foi publicado na Beira o primeiro dicionário português-sena-português.[12] Desde 2004, a língua sena integra o ensino bilingue em escolas rurais da província de Sofala, durante os cinco primeiros anos do ensino primário, do Sistema Nacional de Educação.[13][14]

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Demografia da língua sena em Moçambique (NELIMO, 1989)
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Ortografia

Apresenta-se o alfabeto da escrita em sena (esquerda) e a respetiva transcrição no Alfabeto Fonético Internacional (AFI)(direita). A cada letra ou conjunto de letras corresponde apenas um som e vice-versa.[15][16][17]

Mais informação Sena, AFI ...

Classes nominais

Sendo uma língua bantu, o sena é uma língua aglutinante cujas palavras são compostas por afixação à esquerda do radical. O sistema de afixação é regido pelas classes nominais, ou seja, todas palavras dos grupos nominais duma frase são compostas pelo prefixo de concordância do nome que é o constituinte principal do grupo nominal. Na língua sena tem as seguintes quinze classes nominais.[18]

Mais informação Classe, Prefixo ...
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Verbos

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A flexão verbal, cujo infinitivo pertence à classe nominal 15, é composta pelo prefixo de pessoa e número, seguido do infixo de tempo e modo, terminando com o radical à direita da palavra. A ordem dos constituintes da frase é SVO. Segue-se o exemplo com os verbos kulima (lavrar), kuyimba (cantar), kumwa (beber) e kulemba (escrever).[19]

Mais informação Presente & Futuro -INA- ...
Mais informação Presente Habitual -MBA- ...
Mais informação Pretérito Perfeito Próximo -A- ...
Mais informação 'Pretérito Perfeito Remoto'-DA- ...
Mais informação 'Pretérito Imperfeito'-KHA- ...
Mais informação 'Pretérito Mais-Que-Perfeito'-KADA- ...
Mais informação 'Condicional'-NGA- ...
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Numerais

Apresentam-se os radicais que são sempre utilizados com um prefixo da classe nominal.[20]

1 -bodzi
2 -wiri
3 -tatu
4 -nayi
5 -xanu
6 -tanthatu
7 -nomwe
8 -sere
9 -femba
10 khumi

Outro vocabulário

basa trabalho mangwana amanhã mswo porta
bongwe macaco manja mãos mtombwe remédio
dzina nome masiku noite mulungu deus
fungula abrir matako nádegas mwana criança
kufunga fechar mbuzi cabra njinga bicicleta
kumwa beber mkazi mulher nyama carne
kupisa ferver mphalapala antílope thika hiena
macebesi manhã mpunga arroz ufa farinha
madzi água msolo cabeça xamwali amigo

Um texto

Cithakano m’cisena[21]

Pyacitika siku ibodzi, ndzizi wa njala, baba wa panyumba, akakhala na nsambo wa kukwata uci ncitomba mbafikira pakhukhu. Ndzizi onsene akava njala, akapanga anace kuti ndirikwenda kasuta dotha pakhukhu. Na tenepo, angafika akakwata ntete mbanfeka pansi padabisee uci, mbakakwewa nawo uci ule, na mulomo, ninga asadyadi dotha. Anace akapyona pyonsene pikacita babao.

Tradução

Estória em língua sena

Era uma vez, na época da fome, um pai de família que tinha o mau hábito de enterrar numa lixeira, às escondidas, uma pequena bilha de barro cheia de mel. Sempre que tinha fome, dizia aos seus filhos que ia à lixeira chupar cinza. Então, quando lá chegava, espetava a mangueira que tinha levado consigo, no sítio onde tinha escondido o mel e, com ela, puxava-o como se, realmente, estivesse a comer cinza. Os filhos viam tudo isto e quando a mulher descobriu, separou-se do marido.

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Referências

  1. Cossa, L.E. (2007). Línguas Nacionais no Sistema de Ensino para o Desenvolvimento da Educação em Moçambique. Citação de dados do Instituto Nacional de Estatística de Moçambique (Maputo, 1998). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. p. 64-65
  2. Maho, J.F. (org) (2009). New Updated Guthrie List Online. A Referential Classification of Bantu.
  3. Atlas de Moçambique. Maputo: Editora Nacional de Moçambique. 2009. p. 12. ISBN 978-0-797828-21-6 |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  4. Kishindo, P.J. (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 30 |nome2= sem |sobrenome2= em Authors list (ajuda)
  5. Kishindo, P.J. (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 30-31. ISBN 978-2-296-04478-4 |nome2= sem |sobrenome2= em Authors list (ajuda)
  6. Relatório do I Seminário sobre a Padronização da Ortografia de Línguas Moçambicanas. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane. 1989. p. 64 |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  7. Cossa, L.E. (2007). Línguas Nacionais no Sistema de Ensino para o Desenvolvimento da Educação em Moçambique. Citação de dados do Instituto Nacional de Estatística (Maputo, 1998). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. p. 65
  8. Atlas de Moçambique. Maputo: Editora Nacional de Moçambique. 2009. p. 13 |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  9. Gordon Jr, R.G. (2005). Ethnologue. Languages of the World. Dallas, TX: SIL International. p. 149. ISBN 1-55671-159-X
  10. Torrend, Jules (1900). Grammatica do Chisena. A Grammar of the language of the Lower Zambezi. Chipanga / Chupanga: Typographia da Missão de Chipanga
  11. Pedroso, F. (1898). Missão de Chipanga. In Portugal em Africa (revista scientifica), vol. 5. Lisboa: Typ. Companhia Nacional Editora. p. 403-407
  12. Alves, A. (1957). Dicionário Português-Chisena e Chisena Português. Beira: Tipografia da Escola de Artes e Ofícios
  13. Patel, S.A. (2006). Olhares sobre a Educação Bilingue e seus Professores em uma região de Moçambique. Campinas: Unicamp. p. 56
  14. Cossa, L.E. (2007). Línguas Nacionais no Sistema de Ensino para o Desenvolvimento da Educação em Moçambique. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. p. 71-76
  15. Kishindo, P.J. (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 42-46
  16. NELIMO (1989). Relatório do I Seminário sobre a Padronização da Ortografia de Línguas Moçambicanas. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane. p. 64-68
  17. Guia do Leitor da Língua Cisena. Nampula: SIL Moçambique. 2010 |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  18. Kishindo, P.J.; Lipenga, A.L. (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 48-59
  19. Kishindo, P.J.; Lipenga, A.L (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 69-72
  20. Kishindo, P.J.; Lipenga, A.L. (2007). Parlons Cisena. Langue et culture du Mozambique. Paris: L'Harmattan. p. 27
  21. NELIMO (1989). Relatório do I Seminário sobre a Padronização da Ortografia de Línguas Moçambicanas. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane. p. 69
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Bibliografia

Ligações externas

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