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O Plano Marshall (conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Europeia) foi o principal plano dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. A iniciativa recebeu o nome do Secretário de Estado dos Estados Unidos, George Marshall. Os estadunidenses deram ajuda econômica em valores que variam, a depender das fontes utilizadas, entre 12,6[1][2] a 14 bilhões de dólares na época,[3] o equivalente a cerca de cem bilhões de dólares em 2018 ajustado pela inflação.[4] As estimativas de 12,6 bilhões de dólares têm como referência os valores inscritos no orçamento dos Estados Unidos. Este montante, deflacionado para 2020, corresponderia a cerca de 132 bilhões de dólares.

Mapa da Europa dos países que receberam ajuda do Plano Marshall. As colunas azuis mostram a quantidade total relativa de ajuda por país.

Análises mais recentes apontam que esse cálculo subestima o real peso desses recursos empregados pelo Plano. Essa injeção de recursos, tanto considerando o tamanho da economia e do orçamento dos Estados Unidos à época quanto, principalmente, sua importância para uma economia europeia quase completamente destruída pela guerra, teve um peso de fato muito maior.

Para evitar subestimar esse peso apenas com a estimativa de gastos deflacionados, um estudo apresentado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)[5] considerou a proporção do orçamento gasto com o Plano Marshall pelo Governo dos Estados Unidos, entre 1948 a 1951, e o quanto isso representaria em proporção equivalente do orçamento de 2020. Para um orçamento total dos Estados Unidos estimado, em 2020, em US$ 4,59 trilhões, um novo Plano Marshall desembolsaria, ao longo dos quatro anos em que esteve vigente, algo em torno de US$ 1,35 trilhão, em valores de 2020, para se equiparar àqueles gastos.[6]

Os recursos foram entregues para ajudar na recuperação dos países europeus que se juntaram à Organização Europeia para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Substituindo o anterior Plano Morgenthau, operou por quatro anos a partir de 2 de abril de 1948.[7] Os objetivos dos Estados Unidos eram reconstruir regiões devastadas pela guerra, remover barreiras comerciais e modernizar a indústria, melhorar a prosperidade europeia e impedir a disseminação do comunismo.[8] O Plano Marshall exigiu uma redução das barreiras interestaduais, uma queda de muitos regulamentos e encorajou um aumento da produtividade, bem como o sindicalismo e os novos modelos de negócios "modernos".[9]

A ajuda do Plano foi dividida entre os países beneficiários em uma base per capita. Maiores quantidades foram dadas às grandes potências industriais, já que a principal ideia era de que seu renascimento seria essencial para a prosperidade geral da Europa. Essas nações aliadas receberam um pouco mais de ajuda per capita do que os ex-membros do Eixo ou os países que permaneceram neutros. O maior beneficiário do dinheiro do Plano Marshall foi o Reino Unido (que recebeu cerca de 26% do total), seguido da França (18%) e da Alemanha Ocidental (11%).[10] Cerca de dezoito países europeus receberam benefícios do Plano. Apesar de ter sido prometida, durante a guerra, que receberia ajuda financeira, a União Soviética recusou-se a participar do programa por medo de perder sua independência econômica; além disso, também bloqueou a possível participação de países da Europa Oriental, como a Alemanha Oriental, Checoslováquia, Hungria e Polônia.[11] Os Estados Unidos forneceram programas de ajuda similares na Ásia, mas não faziam parte do Plano Marshall.[12]

Destaca-se, no entanto, que o papel dos Estados Unidos na rápida recuperação tem sido debatido. Muitos rejeitam a ideia do país milagrosamente reviver a Europa, já que as evidências mostram que alguma recuperação já estava em andamento. As subvenções do Plano Marshall foram concedidas a uma taxa que não era muito maior em termos de fluxo do que a ajuda anterior da UNRRA e representavam menos de três por cento da renda nacional combinada dos países receptores entre 1948 e 1951,[13] o que significaria um aumento no crescimento do PIB de apenas 0,3%.[14]

Eichengreen e Uzan (1992), porém, usaram modelos econométricos para calcular os impactos positivos do Plano na reconstrução europeia que atestam seus efeitos positivos.[15] Em estudo do Ipea, Lassance aponta que o ERP funcionou como uma espécie de “motor de arranque” para a retomada do crescimento europeu. Os aportes foram importantes na medida em que os Estados nacionais europeus, no pós Segunda Guerra, estavam descapitalizados, e havia "um clima de paralisia e desconfiança que amedrontava os agentes econômicos quanto ao futuro da Europa".[6]

O pesquisador também ressalta que os efeitos de retomada exuberante alcançados pela Europa foram sobretudo obra dos próprios governos europeus, pelo menos dos que aplicaram esses recursos em infraestrutura, educação e saúde, além de terem desenvolvido uma economia política do bem-estar, por meio da tributação progressiva. Foi essa combinação, e não o Plano Marshall, isoladamente, que garantiu taxas de crescimento elevadas em vários países, mas não todos. Segundo este estudo, o Plano Marshall não colecionou apenas êxitos, mas também fracassos, como foi o caso de Portugal, Grécia e Turquia, que receberam recursos, mas "que não se industrializaram nem se democratizaram ou construíram Estados de bem-estar social mínimos, nas décadas de 1950 e 1960".[6]