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Domitila de Castro
marquesa de Santos Da Wikipédia, a enciclopédia livre
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Domitila de Castro Canto e Melo[nota 1] (São Paulo, 27 de dezembro de 1797 — São Paulo, 3 de novembro de 1867), primeira e única viscondessa com grandeza e marquesa de Santos, foi uma nobre brasileira, célebre pela sua longa e influente relação amorosa com o imperador D. Pedro I.
Sua posição como favorita do imperador marcou profundamente o Primeiro Reinado, influenciando a corte, a política e a vida da família imperial, especialmente a relação de D. Pedro com a imperatriz Maria Leopoldina de Áustria. Após o fim do romance, Domitila retornou a São Paulo, onde se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos políticos mais influentes da província, tornando-se uma poderosa matriarca, respeitada por suas atividades filantrópicas e sua forte personalidade. Sua figura histórica, complexa e controversa, foi objeto de intensa disputa memorialística, sendo retratada ao longo do tempo como uma vilã ambiciosa, uma heroína romântica e, mais recentemente, como uma mulher que desafiou as convenções sociais e exerceu notável agência sobre sua própria vida.[2]
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Origens e Juventude
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Família e nascimento

Domitila nasceu em São Paulo, filha de João de Castro Canto e Melo, primeiro visconde de Castro, e de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas. Era neta do coronel Carlos José Ribas e descendia de importantes famílias da elite paulista, como os Toledo Piza, sendo tetraneta do patriarca Simão de Toledo Piza. Foi batizada em 7 de março de 1798 na antiga Igreja da Sé, em São Paulo, tendo como padrinho o alferes José Duarte e Câmara.[3] Tinha oito irmãos: João, José, Maria, Pedro, Maria Benedita, Ana Cândida, Fortunata, Francisco; e uma meia-irmã chamada Matilde Eufrosina.[4]
Primeiro casamento e violência doméstica
Em 13 de janeiro de 1813,[5] aos quinze anos, Domitila casou-se com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1790–1833), oficial do Corpo dos Dragões de Vila Rica (atual Ouro Preto). A historiografia, baseada em seu processo de divórcio, descreve Felício como um homem violento e jogador compulsivo, que submetia a esposa a agressões físicas constantes.[6] Após o casamento, o casal mudou-se para Vila Rica, onde nasceram seus três primeiros filhos.
Devido aos contínuos maus-tratos, Domitila retornou à casa dos pais em São Paulo em 1816. Embora o casal tenha tentado uma reconciliação em 1818, a violência de Felício se intensificou. O episódio mais grave ocorreu na manhã de 6 de março de 1819, quando Felício, movido por ciúmes e questões financeiras, atacou Domitila com duas facadas, uma na coxa e outra no abdômen, perto da fonte de Santa Luzia, em São Paulo.[7] Felício foi preso, e Domitila, após se recuperar, iniciou uma longa batalha judicial pela separação. O divórcio só foi oficialmente concedido em 21 de maio de 1824, quando ela já era a amante do imperador.[6] A documentação do processo revela que a acusação de adultério, usada por detratores para justificar a violência, era infundada. Na verdade, as testemunhas e provas indicaram que Felício tentara assassiná-la para se apossar das terras que herdaram em Minas Gerais.[8]
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A Relação com D. Pedro I
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O início do romance e a ascensão na Corte

Domitila conheceu D. Pedro em 29 de agosto de 1822, em São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência.[12] O relacionamento se consolidou rapidamente e, em 1823, o já Imperador do Brasil instalou Domitila em uma casa no Rio de Janeiro. A relação, que durou cerca de sete anos, foi a mais longa e notória de D. Pedro, embora ele mantivesse outros casos paralelos, inclusive com a irmã de Domitila, Maria Benedita.[13]

Em 1826, Domitila recebeu de presente do imperador a famosa "Casa Amarela", uma luxuosa mansão em estilo neoclássico próxima à residência oficial da família imperial, a Quinta da Boa Vista.[14] Sua ascensão foi meteórica. D. Pedro concedeu-lhe títulos, honrarias e uma posição de destaque na corte:
- Dama Camarista da Imperatriz (04 de abril de 1825): Uma posição de honra no círculo íntimo da Imperatriz Leopoldina, o que foi visto como uma afronta direta a ela.
- Viscondessa de Santos (12 de outubro de 1825): Recebeu o título com as honras de grandeza do Império.[15]
- Marquesa de Santos (12 de outubro de 1826): Seu título foi elevado no ano seguinte.
- Ordem Real de Santa Isabel (04 de abril de 1827): Foi agraciada com a prestigiosa ordem honorífica portuguesa.
A escolha do título "de Santos" foi uma provocação direta aos irmãos Andrada, inimigos políticos do imperador e naturais de Santos. Em exílio na França, José Bonifácio escreveu, indignado:
"Quem sonharia que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas! Que insulto desmiolado!".
A família de Domitila também foi elevada à nobreza, recebendo títulos e posições na corte, o que consolidou o poder de seu clã.
Rivalidade com a Imperatriz Leopoldina
A presença ostensiva de Domitila na corte causou profundo sofrimento e humilhação à Imperatriz Maria Leopoldina. A nomeação da amante como dama de companhia foi o ápice do escândalo, forçando a imperatriz a conviver oficialmente com a rival. A morte de Leopoldina, em dezembro de 1826, gerou uma crise política e acusações de que a angústia causada pelo caso amoroso e uma suposta agressão física de D. Pedro teriam precipitado sua morte. Embora a versão da agressão tenha se popularizado, relatos médicos da época apontam para uma infecção puerperal como causa mortis.[17] Em uma carta enviada à sua irmã, a futura Imperatriz do Brasil, Maria Luísa, Leopoldina desabafou sobre Domitila:
O monstro sedutor é a causa de todas as desgraças.
. A morte da popular imperatriz abalou a imagem de D. Pedro I e intensificou a hostilidade pública contra a Marquesa.
A intimidade do poder: As cartas e os filhos

As mais de 180 cartas trocadas entre D. Pedro e Domitila, analisadas por biógrafos como Alberto Rangel e Paulo Rezzutti, revelam a profundidade e a complexidade da relação. Nelas, o imperador usava o apelido de "Demonão", enquanto se referia a Domitila como "Titília". A correspondência mescla juras de amor com assuntos de Estado, fofocas da corte e detalhes íntimos, incluindo desenhos eróticos e linguagem vulgar, demonstrando uma paixão avassaladora que influenciava o humor e as decisões do monarca.[18]
Dessa relação nasceram cinco filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta. D. Pedro legitimou sua prole com a Marquesa, concedendo títulos e status, algo incomum para filhos fora do casamento na época.
O fim do romance e o exílio da Corte
A relação de D. Pedro e Domitila terminou em 1829. Pressionado a contrair um novo matrimônio para garantir a sucessão e restaurar sua imagem na Europa, o imperador negociou o casamento com a princesa Amélia de Leuchtenberg. A família da noiva e as cortes europeias, horrorizadas com o escândalo da amante, impuseram como condição o afastamento definitivo de Domitila da corte.[20]
O Barão Wenzel de Mareschal, embaixador austríaco, relatou que D. Pedro se convencera de que a presença da Marquesa era "inoportuna" e que sua partida para São Paulo era essencial. D. Pedro comprou as propriedades dela no Rio, incluindo a Casa Amarela (que mais tarde abrigaria a jovem rainha Maria II de Portugal), e Domitila retornou à sua província natal, encerrando o capítulo mais intenso e controverso de sua vida.
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A Matriarca de São Paulo
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Segundo casamento e aliança de poder

De volta a São Paulo, Domitila não se retirou da vida pública. Em 1833, uniu-se a uma das figuras mais poderosas da província, o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (1794–1857). Rico tropeiro e fazendeiro de Sorocaba, Tobias de Aguiar era um líder do Partido Liberal (Império), conhecido como "Reizinho de São Paulo" por sua influência e fortuna.[21] O casamento, oficializado em Sorocaba em 1842, representou uma poderosa aliança entre o prestígio e a riqueza de Domitila e o poder político de Tobias. Juntos, formaram um dos clãs mais influentes de São Paulo.
A Revolução Liberal de 1842
Em 1842, Tobias de Aguiar foi um dos principais líderes da Revolução Liberal, um levante contra o governo conservador do Império. Com a iminente derrota dos rebeldes para as tropas lideradas por Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias, Tobias fugiu para o sul, mas foi capturado e preso na Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro. Demonstrando lealdade e coragem, a Marquesa viajou para a corte e solicitou ao jovem imperador D. Pedro II permissão para viver com o marido na prisão e cuidar de sua saúde, o que foi concedido.[22] Anistiado em 1844, o casal retornou a São Paulo, onde foi recebido com grandes festas.
A união com Tobias de Aguiar durou 24 anos, até a morte dele em 1857, e foi o relacionamento mais longo da vida de Domitila. Tiveram seis filhos.
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Vida tardia, morte e legado
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O Solar da Marquesa e a vida em São Paulo

Em 1834, Domitila adquiriu um vasto casarão no centro de São Paulo, hoje conhecido como Solar da Marquesa de Santos. O imóvel, único remanescente urbano da época construído em taipa-de-pilão no centro histórico,[23] tornou-se um dos principais pontos de encontro da elite paulistana, palco de saraus e bailes. Após ficar viúva de Tobias de Aguiar, a Marquesa se tornou uma figura respeitada, dedicando-se a obras de caridade, auxiliando estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e amparando os necessitados.[24] O biógrafo Paulo Rezzutti destaca que, ao contrário do que a historiografia tradicional sugeria, Domitila nunca foi uma "pobre coitada", mas sim uma hábil administradora de sua fortuna e uma mulher consciente de seu poder, como demonstra uma carta a um genro: "Eu sendo mulher lembro-me do futuro".[25]
Morte e devoção popular

Domitila morreu de enterocolite em 3 de novembro de 1867, em seu solar. Foi sepultada no Cemitério da Consolação, em um jazigo construído com uma doação de 2 contos de réis feita por ela mesma para a capela do cemitério.[26] No mesmo local estão enterrados seu irmão, seu filho Felício e sua filha com D. Pedro, a Condessa de Iguaçu.[27]
Seu túmulo tornou-se um local de peregrinação e é constantemente adornado com flores frescas. Domitila transformou-se em uma espécie de "santa popular", invocada por prostitutas (por ter sido estigmatizada em vida) e por mulheres que buscam um bom casamento, inspiradas em sua capacidade de se reerguer e formar uma nova família de prestígio após o escândalo com o imperador.[28] O sanfoneiro Mario Zan, um de seus mais famosos devotos, cuidou do jazigo por anos e foi enterrado em frente ao dela.[29]
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Análise historiográfica: A construção de uma imagem
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A figura de Domitila de Castro é um caso exemplar de como a imagem de uma mulher pode ser construída e disputada pela historiografia. Ao longo de quase dois séculos, ela transitou entre os papéis de vilã, vítima e heroína, refletindo as mudanças sociais e ideológicas de cada época.
- A vilã e a "michela": A primeira imagem de Domitila foi forjada por seus inimigos políticos, notadamente José Bonifácio de Andrada e Silva. Em suas correspondências e nos círculos de oposição, ela era retratada como uma prostituta ("michela"), uma alpinista social ambiciosa cuja influência nefasta sobre D. Pedro I ameaçava a moralidade e a estabilidade do Império. Essa visão negativa foi perpetuada por cronistas e historiadores do século XIX, que a culpavam pela decadência da imagem do imperador e pelo sofrimento da virtuosa Imperatriz Leopoldina.[30]
- A heroína romântica: No século XX, uma nova interpretação surgiu, em grande parte moldada pelo sucesso do romance A Marquesa de Santos (1925), de Paulo Setúbal. Nessa versão, Domitila é transformada em uma heroína romântica, protagonista de uma avassaladora história de amor com o imperador. Embora ainda sensual e transgressora, sua figura é humanizada e justificada pela força da paixão. Essa visão romantizada dominou o imaginário popular, sendo reforçada por inúmeras adaptações para o teatro, cinema e televisão.[30]
- A mulher à frente de seu tempo: A partir do final do século XX, com o avanço dos estudos de gênero e da Nova História, biógrafos como Alberto Rangel e, mais recentemente, Mary del Priore e Paulo Rezzutti, passaram a oferecer uma visão mais crítica e multifacetada. Baseando-se em novas fontes, como as cartas íntimas e o processo de divórcio, esses autores revelaram uma Domitila mais complexa. Rezzutti, em particular, argumenta que o foco exclusivo no caso amoroso obscureceu "90% de sua vida".[25] Ele a apresenta como uma mulher resiliente, que sobreviveu a um casamento violento, negociou sua posição na corte, administrou com inteligência uma grande fortuna e se restabeleceu em São Paulo como uma matriarca poderosa e respeitada. Essa perspectiva moderna não a absolve de suas ambiguidades, mas a reconhece como uma figura de notável agência, que soube manobrar com as ferramentas que tinha dentro de uma sociedade rigidamente patriarcal.[31]
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Representações na cultura
A vida de Domitila inspirou uma vasta produção cultural, consolidando seu lugar no imaginário brasileiro.
Cinema
- Independência ou Morte (1972), interpretada por Glória Menezes.
Televisão
- Marquesa de Santos (1984), minissérie da Rede Manchete, com Maitê Proença no papel-título.
- O Quinto dos Infernos (2002), minissérie da Rede Globo, interpretada por Luana Piovani.
- Novo Mundo (2017), telenovela da Rede Globo, interpretada por Agatha Moreira.
Ópera e Música
- Domitila (2000), ópera de câmara de João Guilherme Ripper.
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Bibliografia selecionada
- DEL PRIORE, Mary. A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
- RANGEL, Alberto. Dom Pedro Primeiro e a marquesa de Santos. Tours: Arrault e Companhia, 1928.
- RANGEL, Alberto (notas); ARAÚJO, Emanuel (coord.). Cartas de D. Pedro I à marquesa de Santos. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1984.
- REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão. Cartas inéditas de D. Pedro I à marquesa de Santos. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
- REZZUTTI, Paulo. Domitila. A verdadeira história da marquesa de Santos. São Paulo: Geração Editorial, 2013. (Reeditado como "A história não contada" pela Leya em 2019 e 2023).
- SANTINI, Valesca Henzel. Uma doação para o futuro da alma: o testamento da Marquesa de Santos. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023. (disponível em PDF)
- ANVERSA, Julia Savaglia. Gênero e patrimônio: o Solar da Marquesa de Santos e a memória de Domitila de Castro (1935-1991). Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. (disponível em PDF)
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Notas
- Há o boato, de que o menino teria sido entregue a um padre, conhecido da família, por Domitila, pois na época ela ainda estava casada com Felício e ainda o Império do Brasil estava em conflito devido à recente independência. Em uma entrevista o biógrafo Paulo Rezzutti diz ter recebido a informação de um diário pertencente a uma mulher chamada Teodora, em que ela relatava que seu bisavô seria o primeiro filho da Marquesa com o Imperador e conta sobre a família. Porém não se tem nada comprovado a respeito dessa informação.[19]
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