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Oswaldo Goeldi

gravador brasileiro Da Wikipédia, a enciclopédia livre

Oswaldo Goeldi
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Oswaldo Goeldi (Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1895 – Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 1961) foi um desenhista, ilustrador, gravador, e professor brasileiro.[1][2]

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Oswaldo Goeldi nasceu em 1895, no Rio de Janeiro, mas mudou-se para Belém antes de completar um ano de idade, tendo permanecido na capital do estado do Pará até os seis anos. Seu pai foi o cientista suíço Emilio Augusto Goeldi, que veio residir no Brasil em 1984 a convite de D. Pedro II. Instalado em território brasileiro, o naturalista casou-se com Adelina Meyer, pertencente a uma rica família de comerciantes de origem Suíça. Em razão da conexão com o imperador, o pai do artista trabalhou inicialmente na Quinta da Boa Vista, mas mudou-se para Teresópolis em decorrência da República, tendo trabalhado na Colônia Alpina, pertencente à família real.[3]

Em 1893, Emílo Goeldi foi convidado a dirigir o Museu Paraense, atualmente chamado Museu Paraense Emílio Goeldi. Como parte de seu trabalho, realizava viagens de expedição investigatória pela floresta amazônica, tendo representado os interesses brasileiros na disputa territorial sobre o Amapá. Oswaldo Goeldi nasceu em uma das viagens do cientista à capital; em época, o Rio de Janeiro. E por isso, poucos meses após seu nascimento, mudou-se para Belém, onde a família já residia. Seu nome foi uma homenagem a um grande cientista amigo de seu pai, Oswaldo Cruz.[3]

O tempo vivido em Belém, onde Oswaldo Goeldi denvolveu um contato com a fauna e a flora tropical, foi incorporado no discurso do artista em depoimentos futuros, sendo um marco importante na sua imaginação criadora. A experiência nesses primeiros anos de vida marcou seu trabalho futuro e foi revisitada quando o artista, após anos mergulhado no simbolismo e expressonismo europeu, retornou ao Brasil.[3]

Por conta do trabalho desenvolvido por Emílio Goeldi, a família alternava moradia entre Belém, Rio de Janeiro e Suíça. Contudo, em 1905, o cientista e sua família mudaram-se em definitivo para Berna, na Suíça, tendo como justificativa um melhor ambiente para a educação de seus filhos. Tal interesse é reforçado quando em 1907 o pai deixa o cargo de diretor do Museu Paraense, apresentando como justificativa o interesse em cuidar de sua saúde e aumentar a supervisão sobre a formação de seus filhos. Anos depois, Emílio Goeldi tornou-se acadêmico da Universidade de Berna.[3]

Dos 6 aos 24 anos, Oswaldo Goeldi viveu na Suíça. Em 1914, com cerca de 20 anos, ingressou no curso de engenharia da Escola Politécnica, em Zurique;[4] e iniciou seu contato e interesse pelo desenho. O desenvolvimento de sua relação com a arte pode ser conectada ao contato com o fervor da juventude da época, engajada tanto nos debates artísticos, quanto nas reflexões políticas latente nos anos pré-Primeira Guerra. Ainda em 1914, as questões políticas impactaram de forma incisiva sua vida: Oswaldo Goeldi precisou interromper seus estudos em razão de uma convocação de serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial, experiência que o marca significativamente.[3]

Outro momento importante da vida do artista foi a morte do pai, em 1917. O falecimento do cientista leva a viúva, Adelina, a retornar ao Brasil para ficar perto de sua família; mas, inicialmente, Goeldi não volta com seus familiares. O jovem vê na morte do pai a liberdade para explorar seu interesse pelas artes, e convence a mãe de deixá-lo mudar-se para Genebra, onde se matricula, em 1917, na Ecole des Arts et Métiers (Escola de Artes e Ofícios). O desgosto familiar pelo abandono da área científica por Oswaldo Goeldi, bem como a sabida vida boêmia que ele passa a levar após sua decisão, marcam o iníco de um afastamento do seio familiar. O desgosto pela decisão de Goeldi aumenta quando apenas seis meses após matricular-se, Goeldi abandona a escola. Contudo, uma motivação artística levou o artista a essa decisão: queria afastar-se do academicismo dos professores em busca de uma linguagem mais própria, interesse persistente entre diversos artistas que iniciaram a arte moderna. [3]

Formação artística

Após abandonar a escola, o artista passa a ter aulas no ateliê dos artistas Serge Pahnnke (1875 - 1950) e Henri van Muyden (1860 - s.d.), mas novamente o interesse em investigar suas próprias potências expressivas, frente ao ensino da reprodução das obras dos mestres, o fez deixar de frequentar ambos os espaços. Nesse período, entra em contato e hospeda-se no ateliê de Hermann Kümmerly, artista suíço a quem Goeldi admirou e com quem aprendeu a litografia. É já nesse primeiro momento que temas recorrentes de sua obra apareceram; a saber: cenas noturnas, casas abandonadas, ruas vazias, figuras fantásticas, etc.[3]

É assim que, ainda em 1917, realiza a primeira exposição individual em Berna, na Galeria Wyss. É através dessa exposição que Goeldi conhece a obra de Alfred Kubin (1877 - 1959), sua grande influência artística. Ano depois, em 1926, Oswaldo Goeldi envia uma primeira carta a Alfred Kubin iniciando 26 anos de troca de correspondências que construiram uma relação de forte vinculação poética, tendo Goeldi reconhecido o artista austríaco como "Venerado Mestre"[5] e Kubin, ao artista mais novo, como seu "único e legítimo aluno e sucessor"[6].[1]

Em 1919 Oswaldo Goeldi retorna ao Rio de Janeiro, pois sua família não consegue mais sustentá-lo na Europa; além de não aprovarem o estilo de vida que ele levava no antigo mundo. Inicialmente, os parentes maternos arranjam para Oswaldo Goeldi um trabalho no London and River Plate Bank, mas o artista não se adapta ao convívio intenso com a família e com a rotina de trabalho em um banco. Nesse período, é através das correspondências e envio de trabalhos para Hermann Kümmerly e Alfred Kubin que reflete sobre sua produção artística e sobre a mudança de ambiente.[3]

O afastamento da família se agravou após o casamento de Mathilde, irmã do artista, com Martin Wenger, amigo europeu de Goeldi. Chamado de Martinus pelo artista, o homem se hospedou na casa de Goeldi no Rio de Janeiro e se tornou sua companhia na vida boêmia até noticiá-lo, de surpresa, do casamento com a irmã, o que não agradou ao artista. A influência do cunhado, que passou a condenar a vida boêmia do antigo amigo, foi definitiva no desentendimento entre o artista e seus parentes. Martin Wenger passou a gerenciar os bens da família e performar uma imagem idônea, apesar de esconder dívidas que eram conhecidas por Goeldi.[3]

Ainda em 1919, após abandonar o emprego arranjado por seus familiares, Oswaldo Goeldi passa a trabalhar como ilustrador nas revistas Para Todos e Ilustração Brasileira. Em 1921, realiza sua primeira individual no Brasil, no Liceu de Artes e Ofícios carioca. A exposição teve crítica negativa em época, apesar de ter sido recebida de maneira relativamente positiva por alguns poucos literatos e artistas. Segundo o crítico de arte José Maria dos Reis Júnior, foi nesse momento que o artista desenvolveu seu problema com o alcoolismo. Visto pela família como uma mancha à imagem do pai, Oswaldo Goeldi é enviado para a Europa em 1922, período em que flerta com pensamentos auto-destrutivos. É através de mensagem e recursos financeiros enviados pela amiga Beatriz Reynal que retorna ao Brasil e é recebido com uma pequena festa.[3]

De volta ao Brasil, Goeldi mergulha ainda mais intensamente em sua produção artística, que mescla, sobretudo nesse momento inicial, a morbidez e a solidão com a paisagem tropical e citadina do Rio de Janeiro, manifestando seu interesse por aquilo que revela o insólito na realidade.[7] Em 1923, Oswaldo Goeldi conhece, nas barcas entre Niterói e Rio de Janeiro, Ricardo Bampi, artista brasileiro com formação em artes gráficas na Alemanha. É com ele que aprende a técnica de xilogravura, seu principal meio de expressão poética até o fim da vida.[3]

Em 1924, o antigo desetendimento com a família se agrava após discussão com o cunhado sobre a venda da Fazenda Alpina, em Teresópolis. Sendo o artista contra a vendê-la, fica ainda mais exaltado ao ser acusação de levar uma vida devassa ocultada pela ideia de ser um artista, o que o leva a bater em Martin Wenger. A disputa só é resolvida judicialmente, com derrota de Goeldi, que vê a fazenda sendo vendida e termina por declinar da herança do pai.[3]

Nos anos entre 1924 e 1930, dividi-se entre pernoites em Niterói e o ateliê na Tijuca, onde trabalha, em geral, embriagado. Sozinho, cria os instrumentos de trabalho necessários à xilogravura, como goivas, utilizando aros de guarda-chuva e bicicleta. O artista também recolhe, seleciona e prepara as madeiras, que se tornam as matrizes de suas impressões.[3]

Em 1929, após viagem à São Paulo, dois artigos sobre o artista, escritos por Mário de Andrade e Geraldo Ferraz, são publicados; mostrando uma mudança no cenário artístico brasileiro. Marca-se, ali, o início do reconhecimento de sua produção.[3]

Na década de 1930, lança o álbum 10 Gravuras em Madeira de Oswaldo Goeldi, com introdução do poeta Manuel Bandeira (1884 - 1968). Apesar de insatisfeito com as impressões, usa o dinheiro recebido da venda dos exemplares para fazer uma viagem à Europa, onde encontra-se com Alfred Kubin e com o amigo Hermann Kümmerly.[8] A visita ao velho mundo aprofunda o sentimento de deslocamento e solidão do artista, que é considerado europeu e/ou alemão no Brasil, pela sua produção artística mórbida e expressionista; mas, na Europa, traz os traços da realidade insólita própria dos trópicos.[3]

No final de 1930, passa a residir em um apartamento alugado em Ipanema, no Rio de Janeiro. Naquele período, Ipanema ainda não era um cobiçado e caro bairro carioca, mas uma região pouco habitada, distante e penetrada pela vasta diversidade da mata atlântica. A experiência com a natureza tropical aprofundou a conexão do artista com a prática da xilogravura e a ideia de um confronto do homem (artista) com a madeira (natureza). Nota-se, neste momento uma preocupação com a capacidade de imbuir seus trabalhos de uma dita "luz tropical". [3]

Até meados de 1940, o maior contato de Oswaldo Goeldi com a classe artística brasileira se deu com aqueles ligados ao campo da literatura. Em 1934, suas xilogravuras ilustraram a conferência sobre o poeta Felippe d'Oliveira feita por José Geraldo Vieira. O artista também contribuiu para periódicos e livros, como Cobra Norato, de Raul Bopp (1898 - 1984), publicado em 1937, com suas primeiras xilogravuras coloridas. Envolve-se profundamente com a obra de Bopp, usando de recursos pessoais para atingir o seu interesse artístico com as gravuras.[9] Ainda em 1937, ilustra também o album André de Leão e o demônio de cabelo encarnado, que traz poema de Cassiano Ricardo. [3]

Em 1941, trabalha na ilustração das Obras Completas de Dostoievski, publicadas pela Editora José Olympio. Em 1955, inicia a carreira de professor, na Escolinha de Arte do Brasil, e, em 1955, torna-se professor da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, no Rio de Janeiro, onde abre uma oficina de xilogravura. Foram seus alunos Adir Botelho (seu assistente e substituto), Anna Letycia (que escreveu sobre Goeldi), Samico, Antonio Dias e Roberto Magalhães. Em 1995, o Centro Cultural Banco do Brasil realiza exposição comemorativa do centenário do seu nascimento, no Rio de Janeiro com curadoria de Noemi Ribeiro, a partir do acervo do Museu Nacional de Belas Artes.

Consolidado como ilustrador, expôs na 25ª Bienal de Veneza, em 1950, e ganhou o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Sua carreira como professor começou em 1952 e, após três anos passou a ensinar xilogravura na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1956 foi realizada sua primeira retrospectiva no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, sua mais importante exposição em vida, e no MAM-SP.

A obra de Goeldi já participou de mais de uma centena de exposições póstumas no Brasil, Argentina, França, Portugal, Suíça e Espanha. Todo o acervo do artista hoje é preservado e catalogado pela Associação Artística Cultural Oswaldo Goeldi e pelo Projeto Goeldi, segundo estas instituições.

Goeldi nunca se casou. Hoje, a quase totalidade das matrizes e muitas centenas de gravuras e desenhos de Goeldi estão no Rio de Janeiro, no Museu Nacional de Belas Artes e na Biblioteca Nacional, que também guarda os arquivos do artistas transferidos da PUC-RJ. O terceiro fundo de obras de Goeldi é a antiga coleção do Banco do Estado da Guanabara (BEG), adquirida com recursos públicos da cidade do Rio de Janeiro. No período da fusão, o BEG foi renomeado como BANERJ e, por ocasião da privatização deste, o acervo Goeldi foi transferido par o Museu do Estado do Rio de Janeiro no Palácio do Ingá em Niterói. Nada é comparável a estes três acervos, mas outras coleções públicas são dignas de nota: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a Casa de Rui Barbosa e o Museu de Arte do Rio (MAR) na cidade natal de Goeldi, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o MAC-USP e o Museu da Gravura de Curitiba. A artista Lygia Pape e seu marido Günther Pape foram um dos colecionadores da obra de Goeldi, além de outros apreciadores da obra de Oswaldo Goeldi.

Sua obra tem participado de centenas de exposições no Brasil, Argentina, Equador, México, Uruguai, Bélgica, França, Portugal, Suíça e Espanha. O respeito à obra de Goeldi é resguardado é preservado pelo Projeto Goeldi, que além de um acervo de obras possui o maior acervo documenta e iconográfico sobre o artista, além de utensílios e objetos pessoais resguardados pela instituição fundada pelos herdeiros do artista.

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